Para o bem da natureza. Será?

terça-feira, 7 de dezembro de 2010 15:14 Marketing, Propaganda

O apresentador global Luciano Huck é novo o garoto propaganda da Honda. No comercial, a marca mostra o pioneirismo no desenvolvimento de motocicletas com a tecnologia de motores bi-combustível. O roteiro é simples, mas conta com uma bela produção de imagens – o mínimo que se poderia esperar de um trabalho executado pela agência DM9. A mensagem do comercial demonstra uma preocupação da empresa com a preservação da natureza.

Até este ponto, não há nada que ultrapasse o trivial. No entanto, o que desperta a atenção é justamente a escolha de Luciano Huck para o papel. Famoso, carismático, educado – seria o apresentador a pessoa ideal para representar a marca Honda nesta ação de ecomarketing?


Novo comercial da Honda apresenta tecnologia bi-combustível

Imagem

Devemos considerar que a imagem não está somente na figura, geralmente personificada, que a mídia apresenta ao público. A imagem do personagem, muitas vezes, extrapola os limites da ficção, agregando as característica e as qualidades – boas e ruins – do indivíduo.

Isso gera um conflito no espectador da publicidade que, ao ser exposto à ela, enxergará em alguns momentos o personagem e, em outros, a pessoa. Esta fusão entre o personagem e o indivíduo expõe as características dessas duas facetas e suas representações sociais.

Assim, ao analisar uma peça publicitária, é preciso entender que os espectadores farão conexões entre a mensagem que está sendo proposta, a ficção e a realidade. Dessa maneira, tanto a ficção quanto os fatos da vida real poderão ser, todos eles, considerados. Porém, de antemão, lembro que neste caso específico do comercial da Honda é preciso se ater a um fato concreto e específico – e importante – para se realizar uma avaliação criteriosa.

Fato

Em 5 de agosto de 2009, a edição 2124 da revista Veja trouxe uma matéria sobre a degradação da natureza em Angra dos Reis. Entre as muitas irregularidades, estava uma mansão de Luciano Huck na ilha das Palmeiras.

Segundo a revista, o apresentador teria sido acionado pois a construção de sua casa está sobre o espelho-d’água e as rochas – situação a qual recorreu e ganhou – e, também, por uma dragagem com o objetivo de construir uma praia artificial sem ter a devida licença ambiental para realizá-la.

Ainda no texto, a única frase atribuída a Huck é “Não estou preocupado. Mas acho importante que o poder público deixe as regras mais claras”.

Mensagem

Queremos ajudar a preservar o meio-ambiente e a produzir motocicletas em sintonia com a natureza e o Brasil. Só uma marca como a Honda poderia lançar as primeiras motos flex do mundo. Uma tecnologia desenvolvida aqui no Brasil, mas pensada para o mundo – um mundo melhor. Linha Honda Flex 2011: uma iniciativa verde e amarela para um planeta mais azul.

A primeira palavra pronunciada no comercial é “queremos” – conjugação no presente da primeira pessoa do plural do verbo querer. Apesar de ocultar o sujeito “nós”, a associação entre o apresentador Luciano Huck e a marca Honda fica evidente – juntos discursam em “defensa” de uma causa ecológica. Portanto, no comercial, Huck é a voz que fala em nome da Honda.

Considerando a posição demonstrada pelo apresentador no episódio da dragagem irregular em Angra dos Reis, em que declarou à revista Veja que não estava preocupado e que o poder público deveria ser mais transparente nas questões legais, podemos concluir que a escolha dele para proferir o discurso foi, no mínimo, incoerente – desvirtuando o objetivo institucional que está sendo defendido pela Honda neste comercial.

Para o espectador que assiste o comercial e desconhe o fato noticiado na imprensa, a mensagem acaba sendo transmitida, momentaneamente, sem prejuízo. Porém, para aqueles que já sabiam do acontecido, a mensagem perde a credibilidade e se torna contraditória – até mesmo, enganosa.

Cautela

Apesar do intervalo de tempo decorrido entre a veiculação da notícia e o início da campanha publicitária da Honda, seria sensato ressaltar este ponto no planejamento da ação, levando em consideração o episódio ocorrido com o apresentador Luciano Huck. Imaginar que os espectadores não se atentam a esses detalhes é correr o risco de tomar prejuízo – financeiro ou de imagem – caso o fato seja relembrado, ganhe volume e se espalhe pela internet, pelas redes sociais ou pela imprensa. Precaução, numa situação como esta, é um fator relevante e que não deve ser considerada como excesso de zelo.

Por fim, deixo claro que não tenho nada contra a Honda e nem contra o apresentador Luciano Huck. Este caso serve apenas como exemplo para enfatizar a importância de estar atento com tudo – o que está acontecendo e o que já aconteceu – para evitar transtornos nas ações de comunicação.

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