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Buraco negro

Publicado por Bruno Gonçalves em 6 de outubro de 2010 @ 8:30
Tema(s): Cibercultura, Comunicação, Reflexão


É alar­mante o vo­lume de ma­te­ri­ais de má qua­li­dade e de baixa pro­fun­di­dade que são pro­du­zi­dos e que ga­nham, cada vez mais, es­pa­ços nas mí­dias de massa. E, pior do que todo esse lixo cul­tu­ral, são os ma­te­ri­ais com men­sa­gens ofen­si­vas e pre­ju­di­ci­ais que es­tão ao al­cance de todos.

A in­ter­net é uma das mí­dias que mais con­tri­buem para cons­truir essa re­a­li­dade. Pri­meiro, gra­ças à vul­ne­ra­bi­li­dade de mo­de­ra­ção dos con­teú­dos pu­bli­ca­dos, já que blogs, pá­gi­nas pes­so­ais, fó­runs de dis­cus­são, re­des so­ci­ais e ou­tras fer­ra­men­tas, ge­ral­mente, con­tam ape­nas com o “con­trole edi­to­rial” de seus au­to­res e par­ti­ci­pan­tes. A in­ter­ven­ção dos pro­pri­e­tá­rios ou ges­to­res des­tas fer­ra­men­tas so­bre os con­teú­dos é bas­tante rara e, ocorre, na mai­o­ria das ve­zes, quando há al­guma de­nún­cia por meio dos par­ti­ci­pan­tes, pelo pe­dido de mar­cas ou per­so­na­li­da­des que se jul­gam pre­ju­di­ca­dos, ou por de­ter­mi­na­ção da jus­tiça, como são os exem­plos do You­tube, Or­kut e Fa­ce­book que, fre­quen­te­mente, vi­ram no­tí­cia. Dessa forma, po­de­mos di­zer que a li­ber­dade de ex­pres­são acon­tece efe­ti­va­mente e sem mui­tos fil­tros, po­rém esta si­tu­a­ção fa­vo­rece a pro­pa­ga­ção de men­sa­gens e ma­te­ri­ais que são – ou de­ve­riam ser – con­si­de­ra­dos des­pre­zí­veis pela so­ci­e­dade, como por­no­gra­fia in­fan­til, ca­lú­nias, in­ci­ta­ção à vi­o­lên­cia, in­cen­tivo ao con­sumo de álcool e dro­gas, pre­con­ceito ra­cial, in­to­le­rân­cia re­li­gi­osa, etc. Em se­gundo, por­que a im­pu­ni­dade ainda é mar­cante no mundo vir­tual – os cri­mes ocor­rem em todo o mundo, mas a iden­ti­fi­ca­ção dos cri­mi­no­sos é bas­tante di­fí­cil. E, em ter­ceiro, pelo fato de que to­dos es­ses ma­te­ri­ais são pro­du­zi­dos e ga­nham re­per­cus­são por­que há uma in­fi­ni­dade de pes­soas que os con­so­mem.

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Mas a in­ter­net não está so­zi­nha. A te­le­vi­são é ou­tro meio que con­tri­bui bas­tante para pro­li­fe­rar pro­du­tos de qua­li­dade ques­ti­o­ná­vel. Na guerra in­ces­sante para con­quis­tar a au­di­ên­cia, não há li­mi­tes: são pro­gra­mas que ex­plo­ram a de­ca­dên­cia hu­mana e a sen­su­a­li­dade, te­le­jor­nais que no­ti­ciam ape­nas as fa­ce­tas po­dres da so­ci­e­dade, pro­gra­mas hu­mo­rís­ti­cos com per­so­na­gens es­te­re­o­ti­pa­dos e ro­tei­ros que se abs­tém de ado­tar um dis­curso crí­tico, pro­gra­ma­ção in­fan­til que pouco es­ti­mula o de­sen­vol­vi­mento cog­ni­tivo e emo­ci­o­nal, fil­mes que ra­ra­mente apre­sen­tam um de­bate so­cial, cul­tu­ral ou po­lí­tico. A mai­o­ria das emis­so­ras aber­tas – aces­sí­veis à toda a po­pu­la­ção – des­pre­zam as pro­du­ções de boa qua­li­dade, tanto na­ci­o­nais como es­tran­gei­ras, e apos­tam em for­ma­tos en­la­ta­dos e pro­du­ções de se­gunda categoria.

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Dessa forma, de um lado está o in­di­ví­duo como cé­lula di­fu­sora de pe­que­nos frag­men­tos per­ni­ci­o­sos que te­cem a in­ter­net, e, de ou­tro lado, con­glo­me­ra­dos de co­mu­ni­ca­ção de al­cance glo­bal, com am­pla au­di­ên­cia e gi­gan­tes­cos in­ves­ti­men­tos e ar­re­ca­da­ção, atu­ando em con­junto como pro­fu­so­res de um ideá­rio que de­turpa os va­lo­res mo­rais, a edu­ca­ção, a razão.

Este ce­ná­rio não é no­vi­dade. Ele está se de­sen­vol­vendo há vá­rias ge­ra­ções – an­tes mesmo da in­ter­net sur­gir e se tor­nar po­pu­lar – e, a cada dia, está ga­nhando mais es­paço nas mí­dias de massa e, con­se­quen­te­mente, mais po­der para in­flu­en­ciar uma par­cela cada vez maior da sociedade.

Tor­menta

À de­riva, mui­tos in­di­ví­duos são in­ca­pa­zes de as­su­mir o con­trole da si­tu­a­ção e são le­va­dos pela von­tade dos ven­tos. Como agen­tes pas­si­vos nesta em­bar­ca­ção, par­ti­ci­pam quase in­vo­lun­ta­ri­a­mente da for­ma­ção de uma in­cons­ci­ên­cia co­le­tiva: apá­tica, ali­e­nada, de­sin­te­li­gente, sem força de expressão.

Este pa­no­rama tam­bém é fa­vo­re­cido pela má qua­li­dade do sis­tema edu­ca­ci­o­nal pú­blico que, para quase toda a po­pu­la­ção bra­si­leira, é a única via de acesso ao “di­reito” de “apren­der”. Po­rém, a edu­ca­ção pú­blica não é ca­paz de cum­prir o seu de­ver de en­si­nar – se­quer o bá­sico –, quem dirá con­tri­buir, de al­guma forma, para a for­ma­ção de ci­da­dãos crí­ti­cos, pensantes.

Como va­riá­vel nesta conta de re­sul­tado ne­ga­tivo, os meios de co­mu­ni­ca­ção de massa tam­bém pres­tam um des­ser­viço à so­ci­e­dade. La­pi­dam um co­ti­di­ano de­li­rante, in­ver­tendo os va­lo­res mo­rais, trans­for­mando pes­soas me­dío­cres em ce­le­bri­da­des, cri­ando ído­los va­zios, pro­mo­vendo as pro­du­ções de pés­sima qua­li­dade como se fos­sem “arte” e “cul­tura”, ma­ni­pu­lando as in­for­ma­ções con­forme o jogo de in­te­resse dos gru­pos aos quais defendem.

Por se­guir este ca­mi­nho, os in­di­ví­duos es­tão cada vez mais in­cons­ci­ente de suas re­ais ne­ces­si­da­des. Es­tão des­pre­pa­ra­dos e não têm au­to­no­mia e nem ca­pa­ci­dade para exi­gir uma mu­dança ver­da­deira, fi­cando à mercê do que é de­ci­dido e im­posto pe­los con­fron­tos das mí­dias – e classes – dominantes.

Cal­ma­ria

No Bra­sil – e no mundo –, há uma pe­quena par­cela de in­di­ví­duos que con­se­guem en­xer­gar este ce­ná­rio mi­diá­tico, ana­li­sar as men­sa­gens e classificá-​​las como útil ou fú­til, as­si­mi­lá­vel ou des­car­tá­vel, ve­rí­dica ou ten­den­ci­osa. Es­sas pes­soas são pri­vi­le­gi­a­das, já que com­pre­en­dem que há uma si­tu­a­ção crí­tica que exige aten­ção para evi­tar a con­ta­mi­na­ção pela de­sor­dem ge­rada pela ex­po­si­ção mas­siva de in­for­ma­ções e men­sa­gens de teor suspeito.

Por mais que o pa­no­rama seja ruim, é pos­sí­vel mudá-​​lo. Para isso, é pre­ciso que se in­cen­tive um pro­cesso à cons­ci­en­ti­za­ção. Esse mo­vi­mento deve ser es­ti­mu­lado por di­ver­sas fren­tes, com força po­lí­tica para pro­mo­ver mu­dan­ças sé­rias, prin­ci­pal­mente na edu­ca­ção pú­blica e nos be­ne­fí­cios con­ce­di­dos aos meios de co­mu­ni­ca­ção de massa que se com­pro­me­tem em di­fun­dir co­nhe­ci­men­tos e pro­mo­ver os de­ba­tes so­ci­ais es­sen­ci­ais, in­clu­sive, re­vendo as con­ces­sões pú­bli­cas às emis­so­ras de te­le­vi­são e rádio.

Po­rém, não po­de­mos es­pe­rar que as mu­dan­ças ocor­ram so­zi­nhas. É pre­ciso que cada um as­suma seu pa­pel, con­tri­buindo para trans­for­mar a re­a­li­dade, pelo me­nos, das pes­soas que fa­zem parte do seu rol de ami­gos e con­ta­tos. Não po­de­mos con­ti­nuar pas­si­vos e acei­tar o fato de que há pes­soas que uti­li­zam o voto para ele­ger pa­lha­ços e ou­tros des­qua­li­fi­ca­dos. Não po­de­mos to­le­rar que cri­an­ças vão à es­cola e não re­ce­bem a edu­ca­ção ade­quada – mui­tas se­quer apren­dem a ler e es­cre­ver. Não po­de­mos as­sis­tir de bra­ços cru­za­dos todo o lixo que é ex­posto pela te­le­vi­são aberta. Não po­de­mos es­ti­mu­lar a pro­pa­ga­ção de toda essa po­dri­dão na internet.

Atra­vés da co­la­bo­ra­ção – po­lí­tica, mí­dias e so­ci­e­dade –, é pos­sí­vel tra­çar mu­dan­ças vi­sando trans­for­mar esse bu­raco ne­gro mi­diá­tico num novo ce­ná­rio ilu­mi­nado e mais justo, fo­men­tando a cri­ti­ci­dade para que, dessa forma, os in­di­ví­duos te­nham con­di­ções de ava­liar as men­sa­gens e fa­zer jul­ga­men­tos so­bre as in­for­ma­ções, es­co­lhendo o que é vá­lido e o que é descartável.

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