A cada dia é mais fácil perceber uma mudança comportamental que está se fortalecendo na sociedade moderna: a busca, cada vez maior, por informações mais resumidas, segmentadas, diretas, explícitas, rápidas e, consequetemente, superficiais. Percebendo esta tendência e sentindo as turbulências mercadológicas geradas por este novo cenário, os meios de comunicação estão enfrentando um processo de transformação constante, lançando novos formatos e adotando novas ferramentas para atender, cada vez mais, as novas demandas da comunicação de massa. Nesta fase de transição – como em outras –, o ato de noticiar também está evoluindo.
Comercial apresenta o novo projeto gráfico da Folha de São Paulo
Para constatar este fato, basta lembrar que dois grandes jornais brasileiros – O Estado de São Paulo e Folha de São Paulo – passaram por mudanças recentemente, implantando novos projetos gráficos-editoriais que, entre outras coisas, contemplam essa característica de textos mais condensados.
No atual cenário mundial, globalizado e interconectado, outra questão importante que está colaborando para estabelecer os novos padrões de leitura é a exigência de maior velocidade para a captação das informações e para a elaboração e difusão das mensagens.
Para muitos veículos – principalmente os que estão associados à internet –, a velocidade, em muitos casos, acaba se tornando um fator mais “relevante” do que a apuração da veracidade dos fatos ou de análises mais profundas. Esta postura, que é adotada por muitos veículos, está gerando um volume considerável de informações e notícias inconsistentes, superficiais e, até mesmo, imprecisas. Apesar da maior facilidade para edições e correções posteriores oferecidas pelos novos meios, este artifício acaba sendo, de certa forma, prejudicial, uma vez que é preciso considerar que, nem sempre, o espectador-leitor terá uma segunda oportunidade para acessar e “atualizar” as informações que já foram assimiladas anteriormente.
Resumo do resumo
Produto social deste intenso desejo pela concisão das mensagens, o Twitter pode ser considerado como um marco evolutivo neste sentido. Ao limitar as mensagens dos usuários – indivíduos – a míseros 140 caracteres, o teor de profundidade se restringiu a uma “imensa” superficialidade, sendo possível elaborar e transmitir apenas mensagens com baixo nível de informação.
O vertiginoso crescimento do Twitter associado à sua adoção por inúmeros veículos de comunicação de massa tradicionais – jornais, revistas, emissoras, rádios, portais de notícias, entre outros – está retroalimentado, incentivando e acelerando a proliferação de informações cada vez mais sintéticas.
Esse fato se deve à uma forte motivação dos veículos tradicionais em evitar o choque com as novas tecnologias, encarando-as apenas como concorrentes, mas sim, assimilando-as e aproveitando os seus recursos para se aproximar dos espectadores-leitores, visando criar vínculos com os novos perfis de leitores. E, neste ponto, não está envolvida apenas a relação entre o veículo e os leitores, mas, também, entre a empresa e os consumidores.
Reflexos
Apesar da internet poder auxiliar nas relações entre os veículos e os leitores, facilitando e agilizando o compartilhamento de um extenso volume de informações através de ferramentas como o Twitter, o blog e o iPad, ela também está incentivando os leitores – principalmente as novas gerações – a trocarem o hábito da leitura em suporte físico – jornal, revista, livro e outros impressos – para a tela – monitores, tablets, celulares, etc.
Por mais que diversos intelectuais defendam as facilidades que são proporcionadas pela internet e pela Informática, por exemplo, ao facilitar o processo de pesquisa, de acesso e de compartilhamento de informações, é preciso considerar que outros recursos, como os de entretenimento ou armazenamento, podem atuar negativamente nos processos de comunicação.
Muitos usuários de computadores estão se habituando a executar diversas atividades simultaneamente, aproveitando-se da capacidade multitarefa que é oferecida pelos sistemas operacionais. Assim, por exemplo, um indivíduo pode, ao mesmo tempo, ler uma notícia e, também, escrever textos, assistir vídeos, ouvir músicas, conversar, entre outras atividades. A situação ilustrada é comum e, geralmente, é considerada como normal. Porém, os indivíduos que se expõem, frequentemente, a uma quantidade cada vez maior de estímulos, estão se sujeitando a ter que enfrentar diversos elementos que podem ser considerados como ruídos na comunicação, contribuindo para dispersar a sua atenção ao invés de focá-la.
Os dispositivos de armazenamento e a facilidade de acesso às informações, tanto em computadores quanto por meio da internet, podem ser considerados instrumentos desmotivadores para a memorização humana. Uma vez que os equipamentos têm alta capacidade de guardar informações – e, também, conhecimentos específicos – e velocidade para acessá-las, pode tornar-se quase que dispensável, em certas atividades, a necessidade do processo de aprendizagem e de assimilação de conhecimentos.
Vídeo de Elson Jr aborda o tema da superficialidade na comunicação
Neste ponto, um sério problema é que um grande número de pessoas estão desprezando o valor da obtenção de conhecimentos, imaginando que tudo pode – ou poderá – ser intermediado ou resolvido através do uso da tecnologia, da informática ou da internet. Basta notar o crescimento da prática da ação de “copiar e colar”, que é cada vez mais comum entre os novos estudantes. A preocupação em debater ou desenvolver novos pensamentos em relação à um tema é cada vez menor dentro das salas de aula. A aliança entre a nova educação e os novos artifícios tecnológicos está contribuindo para a formação de indivíduos mais reprodutores e menos criadores.
O presente e o futuro
As consequências dessas mudanças podem ser facilmente percebidas. Estamos encontrando – e, também, procurando – informações mais fáceis de serem “digeridas”. O nível de criticidade em diversos movimentos sociais e culturais – jornalismo, literatura, música, teatro, cinema, novela – está se tornando cada vez menor. O pensamentos crítico está perdendo muito espaço para a mediocridade de mensagens superficiais ou banais.
Se esta transformação social mostrou-se forte nos últimos tempos – e pode se fortalecer ainda mais –, o que podemos esperar para o futuro? Um perfil de indivíduo néscio? Uma sociedade incapaz de criticar?
Para tentar trilhar um futuro diferente, precisamos ter a consciência de que, cada um de nós, pode evitar o hábito de se contentar apenas com a superficialidade das mensagens que é transmitida pela maioria dos veículos de comunicação de massa e por grande parte das pessoas que se comunicam, seja através da internet – suas mídias sociais e outros recursos – ou por outros meios e canais, digitais ou físicos.
Assim, é importante tornar hábito a preferência por fontes que valorizam a crítica profunda, estimulam a discussão de ideias e a troca de conhecimentos. Logo, é necessário escolher bem o conteúdo ao qual iremos nos colocar na condição de espectadores para, consequentemente, aprimorarmos a nossa capacidade intelectual, pensando com embasamento em informações elaboradas com mais qualidade e complexidade, e, também, a nossa capacidade de articular opiniões com mais propriedade.
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1 comentário em:
Comunicação superficial
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Buraco negro
A mídia podre
Comunicação em xeque
Bruno Gonçalves, profissional de comunicação, especialista em comunicação organizacional, propaganda e design gráfico.




Muito bom o texto, é magnifico ler as considerações de alguém que vai contra a maré das manchetes atuais.
Abraços