Comunicação superficial

quarta-feira, 9 de junho de 2010 19:34 1 comentário Cibercultura, Comunicação

A cada dia é mais fá­cil per­ce­ber uma mu­dança com­por­ta­men­tal que está se for­ta­le­cendo na so­ci­e­dade mo­derna: a busca, cada vez maior, por in­for­ma­ções mais re­su­mi­das, seg­men­ta­das, di­re­tas, ex­plí­ci­tas, rá­pi­das e, con­se­que­te­mente, su­per­fi­ci­ais. Per­ce­bendo esta ten­dên­cia e sen­tindo as tur­bu­lên­cias mer­ca­do­ló­gi­cas ge­ra­das por este novo ce­ná­rio, os meios de co­mu­ni­ca­ção es­tão en­fren­tando um pro­cesso de trans­for­ma­ção cons­tante, lan­çando no­vos for­ma­tos e ado­tando no­vas fer­ra­men­tas para aten­der, cada vez mais, as no­vas de­man­das da co­mu­ni­ca­ção de massa. Nesta fase de tran­si­ção – como em ou­tras –, o ato de no­ti­ciar tam­bém está evoluindo.

Comercial apresenta o novo projeto gráfico da Folha de São Paulo

Para cons­ta­tar este fato, basta lem­brar que dois gran­des jor­nais bra­si­lei­ros – O Es­tado de São Paulo e Fo­lha de São Paulo – pas­sa­ram por mu­dan­ças re­cen­te­mente, im­plan­tando no­vos pro­je­tos gráficos-​​editoriais que, en­tre ou­tras coi­sas, con­tem­plam essa ca­rac­te­rís­tica de tex­tos mais condensados.

No atual ce­ná­rio mun­dial, glo­ba­li­zado e in­ter­co­nec­tado, ou­tra ques­tão im­por­tante que está co­la­bo­rando para es­ta­be­le­cer os no­vos pa­drões de lei­tura é a exi­gên­cia de maior ve­lo­ci­dade para a cap­ta­ção das in­for­ma­ções e para a ela­bo­ra­ção e di­fu­são das mensagens.

Para mui­tos veí­cu­los – prin­ci­pal­mente os que es­tão as­so­ci­a­dos à in­ter­net –, a ve­lo­ci­dade, em mui­tos ca­sos, acaba se tor­nando um fa­tor mais “re­le­vante” do que a apu­ra­ção da ve­ra­ci­dade dos fa­tos ou de aná­li­ses mais pro­fun­das. Esta pos­tura, que é ado­tada por mui­tos veí­cu­los, está ge­rando um vo­lume con­si­de­rá­vel de in­for­ma­ções e no­tí­cias in­con­sis­ten­tes, su­per­fi­ci­ais e, até mesmo, im­pre­ci­sas. Ape­sar da maior fa­ci­li­dade para edi­ções e cor­re­ções pos­te­ri­o­res ofe­re­ci­das pe­los no­vos meios, este ar­ti­fí­cio acaba sendo, de certa forma, pre­ju­di­cial, uma vez que é pre­ciso con­si­de­rar que, nem sem­pre, o espectador-​​leitor terá uma se­gunda opor­tu­ni­dade para aces­sar e “atu­a­li­zar” as in­for­ma­ções que já fo­ram as­si­mi­la­das anteriormente.

Re­sumo do resumo

Pro­duto so­cial deste in­tenso de­sejo pela con­ci­são das men­sa­gens, o Twit­ter pode ser con­si­de­rado como um marco evo­lu­tivo neste sen­tido. Ao li­mi­tar as men­sa­gens dos usuá­rios – in­di­ví­duos – a mí­se­ros 140 ca­rac­te­res, o teor de pro­fun­di­dade se res­trin­giu a uma “imensa” su­per­fi­ci­a­li­dade, sendo pos­sí­vel ela­bo­rar e trans­mi­tir ape­nas men­sa­gens com baixo ní­vel de informação.

O ver­ti­gi­noso cres­ci­mento do Twit­ter as­so­ci­ado à sua ado­ção por inú­me­ros veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção de massa tra­di­ci­o­nais – jor­nais, re­vis­tas, emis­so­ras, rá­dios, por­tais de no­tí­cias, en­tre ou­tros – está re­tro­a­li­men­tado, in­cen­ti­vando e ace­le­rando a pro­li­fe­ra­ção de in­for­ma­ções cada vez mais sintéticas.

Esse fato se deve à uma forte mo­ti­va­ção dos veí­cu­los tra­di­ci­o­nais em evi­tar o cho­que com as no­vas tec­no­lo­gias, encarando-​​as ape­nas como con­cor­ren­tes, mas sim, assimilando-​​as e apro­vei­tando os seus re­cur­sos para se apro­xi­mar dos espectadores-​​leitores, vi­sando criar vín­cu­los com os no­vos per­fis de lei­to­res. E, neste ponto, não está en­vol­vida ape­nas a re­la­ção en­tre o veí­culo e os lei­to­res, mas, tam­bém, en­tre a em­presa e os consumidores.

Re­fle­xos

Ape­sar da in­ter­net po­der au­xi­liar nas re­la­ções en­tre os veí­cu­los e os lei­to­res, fa­ci­li­tando e agi­li­zando o com­par­ti­lha­mento de um ex­tenso vo­lume de in­for­ma­ções atra­vés de fer­ra­men­tas como o Twit­ter, o blog e o iPad, ela tam­bém está in­cen­ti­vando os lei­to­res – prin­ci­pal­mente as no­vas ge­ra­ções – a tro­ca­rem o há­bito da lei­tura em su­porte fí­sico – jor­nal, re­vista, li­vro e ou­tros im­pres­sos – para a tela – mo­ni­to­res, ta­blets, ce­lu­la­res, etc.

Por mais que di­ver­sos in­te­lec­tu­ais de­fen­dam as fa­ci­li­da­des que são pro­por­ci­o­na­das pela in­ter­net e pela In­for­má­tica, por exem­plo, ao fa­ci­li­tar o pro­cesso de pes­quisa, de acesso e de com­par­ti­lha­mento de in­for­ma­ções, é pre­ciso con­si­de­rar que ou­tros re­cur­sos, como os de en­tre­te­ni­mento ou ar­ma­ze­na­mento, po­dem atuar ne­ga­ti­va­mente nos pro­ces­sos de comunicação.

Mui­tos usuá­rios de com­pu­ta­do­res es­tão se ha­bi­tu­ando a exe­cu­tar di­ver­sas ati­vi­da­des si­mul­ta­ne­a­mente, aproveitando-​​se da ca­pa­ci­dade mul­ti­ta­refa que é ofe­re­cida pe­los sis­te­mas ope­ra­ci­o­nais. As­sim, por exem­plo, um in­di­ví­duo pode, ao mesmo tempo, ler uma no­tí­cia e, tam­bém, es­cre­ver tex­tos, as­sis­tir ví­deos, ou­vir mú­si­cas, con­ver­sar, en­tre ou­tras ati­vi­da­des. A si­tu­a­ção ilus­trada é co­mum e, ge­ral­mente, é con­si­de­rada como nor­mal. Po­rém, os in­di­ví­duos que se ex­põem, fre­quen­te­mente, a uma quan­ti­dade cada vez maior de es­tí­mu­los, es­tão se su­jei­tando a ter que en­fren­tar di­ver­sos ele­men­tos que po­dem ser con­si­de­ra­dos como ruí­dos na co­mu­ni­ca­ção, con­tri­buindo para dis­per­sar a sua aten­ção ao in­vés de focá-​​la.

Os dis­po­si­ti­vos de ar­ma­ze­na­mento e a fa­ci­li­dade de acesso às in­for­ma­ções, tanto em com­pu­ta­do­res quanto por meio da in­ter­net, po­dem ser con­si­de­ra­dos ins­tru­men­tos des­mo­ti­va­do­res para a me­mo­ri­za­ção hu­mana. Uma vez que os equi­pa­men­tos têm alta ca­pa­ci­dade de guar­dar in­for­ma­ções – e, tam­bém, co­nhe­ci­men­tos es­pe­cí­fi­cos – e ve­lo­ci­dade para acessá-​​las, pode tornar-​​se quase que dis­pen­sá­vel, em cer­tas ati­vi­da­des, a ne­ces­si­dade do pro­cesso de apren­di­za­gem e de as­si­mi­la­ção de conhecimentos.

Vídeo de Elson Jr aborda o tema da superficialidade na comunicação

Neste ponto, um sé­rio pro­blema é que um grande nú­mero de pes­soas es­tão des­pre­zando o va­lor da ob­ten­ção de co­nhe­ci­men­tos, ima­gi­nando que tudo pode – ou po­derá – ser in­ter­me­di­ado ou re­sol­vido atra­vés do uso da tec­no­lo­gia, da in­for­má­tica ou da in­ter­net. Basta no­tar o cres­ci­mento da prá­tica da ação de “co­piar e co­lar”, que é cada vez mais co­mum en­tre os no­vos es­tu­dan­tes. A pre­o­cu­pa­ção em de­ba­ter ou de­sen­vol­ver no­vos pen­sa­men­tos em re­la­ção à um tema é cada vez me­nor den­tro das sa­las de aula. A ali­ança en­tre a nova edu­ca­ção e os no­vos ar­ti­fí­cios tec­no­ló­gi­cos está con­tri­buindo para a for­ma­ção de in­di­ví­duos mais re­pro­du­to­res e me­nos criadores.

O pre­sente e o futuro

As con­sequên­cias des­sas mu­dan­ças po­dem ser fa­cil­mente per­ce­bi­das. Es­ta­mos en­con­trando – e, tam­bém, pro­cu­rando – in­for­ma­ções mais fá­ceis de se­rem “di­ge­ri­das”. O ní­vel de cri­ti­ci­dade em di­ver­sos mo­vi­men­tos so­ci­ais e cul­tu­rais – jor­na­lismo, li­te­ra­tura, mú­sica, te­a­tro, ci­nema, no­vela – está se tor­nando cada vez me­nor. O pen­sa­men­tos crí­tico está per­dendo muito es­paço para a me­di­o­cri­dade de men­sa­gens su­per­fi­ci­ais ou banais.

Se esta trans­for­ma­ção so­cial mostrou-​​se forte nos últi­mos tem­pos – e pode se for­ta­le­cer ainda mais –, o que po­de­mos es­pe­rar para o fu­turo? Um per­fil de in­di­ví­duo nés­cio? Uma so­ci­e­dade in­ca­paz de criticar?

Para ten­tar tri­lhar um fu­turo di­fe­rente, pre­ci­sa­mos ter a cons­ci­ên­cia de que, cada um de nós, pode evi­tar o há­bito de se con­ten­tar ape­nas com a su­per­fi­ci­a­li­dade das men­sa­gens que é trans­mi­tida pela mai­o­ria dos veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção de massa e por grande parte das pes­soas que se co­mu­ni­cam, seja atra­vés da in­ter­net – suas mí­dias so­ci­ais e ou­tros re­cur­sos – ou por ou­tros meios e ca­nais, di­gi­tais ou físicos.

As­sim, é im­por­tante tor­nar há­bito a pre­fe­rên­cia por fon­tes que va­lo­ri­zam a crí­tica pro­funda, es­ti­mu­lam a dis­cus­são de ideias e a troca de co­nhe­ci­men­tos. Logo, é ne­ces­sá­rio es­co­lher bem o con­teúdo ao qual ire­mos nos co­lo­car na con­di­ção de es­pec­ta­do­res para, con­se­quen­te­mente, apri­mo­rar­mos a nossa ca­pa­ci­dade in­te­lec­tual, pen­sando com em­ba­sa­mento em in­for­ma­ções ela­bo­ra­das com mais qua­li­dade e com­ple­xi­dade, e, tam­bém, a nossa ca­pa­ci­dade de ar­ti­cu­lar opi­niões com mais propriedade.

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Carol disse:

Muito bom o texto, é mag­ni­fico ler as con­si­de­ra­ções de al­guém que vai con­tra a maré das man­che­tes atu­ais.
Abraços

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