O mundo fragmentado

sexta-feira, 7 de maio de 2010 13:48 3 comentários Cibercultura, Comunicação, Reflexão

As in­te­ra­ções hu­ma­nas – in­di­vi­du­ais e em gru­pos so­ci­ais – com os avan­ços tec­no­ló­gi­cos es­tão que­brando, com muita in­ten­si­dade, an­ti­gos pa­ra­dig­mas. Este novo ce­ná­rio, fruto do de­sejo hu­mano de pro­gresso, está mol­dando os no­vos va­lo­res para o tempo, a edu­ca­ção, o co­nhe­ci­mento, a co­mu­ni­ca­ção, a eco­no­mia, a cul­tura, as re­la­ções so­ci­ais, o mundo globalizado.

Esta nova re­a­li­dade, não es­tá­tica, so­fre cons­tan­tes mo­di­fi­ca­ções e é o fa­tor de­ter­mi­nante para o es­ti­mulo à frag­men­ta­ção do pen­sa­mento, va­lo­ri­zando o ime­di­a­tismo, a res­posta rá­pida e su­cinta, curta e su­per­fi­cial, des­car­tá­vel, que não pre­cisa ser me­mo­ri­zada ou apren­dida – afi­nal, está ar­ma­ze­nada e à dis­po­si­ção para con­sulta por meio de uma in­fi­ni­dade de equi­pa­men­tos in­for­má­ti­cos e da in­ter­net –, em de­tri­mento ao pen­sa­mento fluído, abran­gente, que exige abs­tra­ção e ra­ci­o­cí­nio, que ob­tém res­pos­tas ela­bo­ra­das e ques­ti­o­na­do­ras, que não tem com­pro­misso com a pressa.

Esta pro­ble­má­tica só pode ser per­ce­bida com in­te­gri­dade por aque­les in­di­ví­duos que, as­sim como eu, são mem­bros des­sas ge­ra­ções de tran­si­ção. É pre­ciso ter con­tato com o novo e ter a me­mó­ria e a ex­pe­ri­ên­cia com o an­tigo. Po­rém, para ob­ter esta per­cep­ção, para en­ten­der esse novo mundo que está sendo cons­truído, é pre­ciso ter força para se li­ber­tar do hoje, do co­ti­di­ano, e para olhar para trás, para o nosso pas­sado. So­mente nos afas­tando do que con­si­de­ra­mos como mo­derno po­de­mos fa­zer juízo de va­lo­res com­pa­ra­ti­vos, ava­li­ando os ele­men­tos desse novo mundo e os ele­men­tos que clas­si­fi­ca­mos como ul­tra­pas­sa­dos, do mundo antigo.

É pre­ciso bus­car as lem­bran­ças de um mundo sem com­pu­ta­dor, in­ter­net, te­le­fone ce­lu­lar, con­trole re­moto, ví­deo game, caixa ele­trô­nico, alarme, blin­da­gem. Ao pes­qui­sar a nossa me­mó­ria, po­de­mos lem­brar de como era a nossa re­la­ção com o tempo, como tí­nha­mos a im­pres­são de que ele pas­sava mais va­ga­ro­sa­mente, como to­das as coi­sas acon­te­ciam sem grande ur­gên­cia, como os mo­men­tos da vida eram mais pra­ze­ro­sos. A re­la­ção do ho­mem com o tempo era ou­tra. A re­la­ção do ho­mem com o tra­ba­lho era ou­tra. A re­la­ção do ho­mem com a edu­ca­ção era ou­tra. A re­la­ção do ho­mem com o ho­mem era ou­tra. A re­la­ção do ho­mem con­sigo mesmo era ou­tra. Ao com­pa­rar­mos o pas­sado com o pre­sente po­de­mos en­con­trar as gran­des mu­dan­ças que ocor­re­ram – as boas e as más – em nos­sas vi­das. Ao fa­zer isso, po­de­re­mos ten­tar apren­der os en­si­na­men­tos que cada mu­dança pro­por­ci­o­nou e vis­lum­brar o fu­turo e as no­vas mu­dan­ças que es­tão por vir.

A vida é uma grande es­cola. As­sim, basta es­tar dis­posto a ler os seus li­vros para ten­tar de­ci­frar um pouco os seus có­di­gos. Ao en­ten­der essa im­por­tân­cia, po­de­mos no­tar que não uma boa es­co­lha dei­xar os nos­sos pen­sa­men­tos im­preg­na­dos e nos dei­xar le­var ape­nas pe­las on­das tec­no­ló­gi­cas. Os avan­ços téc­ni­cos são fruto do sa­ber hu­mano que con­tri­buem para mol­dar os há­bi­tos e cos­tu­mes da so­ci­e­dade e da cul­tura – e que, con­se­quen­te­mente, au­xi­liam a mo­di­fi­car e de­sen­vol­ver a pró­pria so­ci­e­dade e suas cul­tu­ras. Mas esse fato não nos deve le­var a uma con­clu­são em­pí­rica de que to­das as mu­dan­ças pro­por­ci­o­na­das pe­las no­vas tec­no­lo­gias se­jam ape­nas be­né­fi­cas. Elas tam­bém po­dem ser no­ci­vas. Ao ponto que po­de­mos nos co­mu­ni­car com ou­tras pes­soas com mais fa­ci­li­dade e maior frequên­cia atra­vés da in­ter­net ou de ce­lu­la­res, por exem­plo, tam­bém po­de­mos, em con­tra­par­tida, es­tag­nar o nosso con­ví­vio so­cial e nos enclausurar.

Pen­sar o mundo, hoje, sem a in­ter­net e os no­vos ar­ti­fí­cios tec­no­ló­gi­cos é ima­gi­nar um mundo utó­pico, ine­xis­tente. Pre­ci­sa­mos apren­der a con­vi­ver com a tec­no­lo­gia e com to­das as mu­dan­ças so­ci­ais e cul­tu­rais que ela pro­move. E o em­prego da pa­la­vra “apren­der” na frase an­te­rior está cor­reta. Ainda não apren­de­mos a ter equi­lí­brio, a usar de forma ade­quada e be­né­fica os apa­ra­tos tec­no­ló­gi­cos. Por isso, ao mesmo tempo que es­ta­mos con­quis­tando o mundo e di­mi­nuindo suas fron­tei­ras fí­si­cas, ace­le­rando o acesso à in­for­ma­ções, tam­bém es­ta­mos per­di­dos no meio de um grande di­lú­vio, so­frendo per­das na edu­ca­ção, na cul­tura, nos re­la­ci­o­na­men­tos in­ter­pes­so­ais. Es­ta­mos em alto mar, na­dando – ou, se pre­fe­rir, na­ve­gando – con­tra a forte cor­ren­teza. Por­tanto, ou ad­mi­ti­mos que pre­ci­sa­mos apren­der a ve­le­jar por essa águas agi­ta­das ou ire­mos nos afo­gar, pouco a pouco.

Além de apren­der é pre­ciso se com­pro­me­ter a en­si­nar. As no­vas ge­ra­ções não con­tam com a ex­pe­ri­ên­cia de vi­ver uma re­a­li­dade sem com­pu­ta­do­res, re­des, in­ter­net. Di­fe­rente das ge­ra­ções an­te­ri­o­res, di­fi­cil­mente os jo­vens de hoje con­se­gui­rão pra­ti­car o exer­cí­cio de es­tra­nha­mento em re­la­ção ao pa­drões que fo­ram mol­da­dos nas últi­mas dé­ca­das. Esse jo­vem não co­nhece o mundo de­sin­for­ma­ti­zado, des­co­nec­tado e des­glo­ba­li­zado, va­ga­roso, li­mi­tado as fron­tei­ras fí­si­cas. Ele já nas­ceu num mundo di­fe­rente, on­line, mul­ti­ta­refa, mul­ti­fo­cal, glo­ba­li­zado e rá­pido. As fu­tu­ras ge­ra­ções não te­rão o mesmo pri­vi­lé­gio que te­mos hoje para fa­zer es­sas ava­li­a­ções – elas es­tão nas­cendo no olho do fu­ra­cão. É por isso que a nova forma de pen­sar o mundo, em que to­dos pro­ble­mas de­vem ser re­sol­vi­dos o mais rá­pido pos­sí­vel, que to­dos os ques­ti­o­na­men­tos de­vem ter a sua res­posta de forma ime­di­ata, está se so­bre­pondo, ga­nhando força. E, basta cada um de nós ques­ti­o­nar­mos a re­a­li­dade para ava­liar quais são os re­sul­ta­dos de toda essa louca ace­le­ra­ção. Quem ace­lera mais queima mais rá­pido o seu com­bus­tí­vel, anda mais rá­pido, mas não tem a opor­tu­ni­dade de apro­vei­tar a paisagem.

3 comentários em:

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Fernando Mazuti disse:

Este ar­tigo, no atual es­tá­gio da glo­ba­li­za­ção, de­fine a me­ta­mor­fose (aqui en­ten­dida como mo­di­fi­ca­ção) do es­paço pelo ca­pi­tal re­sulta num mundo frag­men­tado. Essa, por sua vez, di­gere, en­tre mui­tos as­pec­tos, a vi­são de de­si­gual­da­des so­ci­ais, so­be­ra­nia, com­pe­ti­ti­vi­dade (ou com­pe­ti­ção?!), dis­puta pelo po­der no ter­ri­tó­rio, in­fluên­cia da mí­dia, se­gra­ga­ção, en­fim, sem­pre le­vando a ques­ti­o­nar, di­ver­gên­cias en­tre es­paço na­tu­ral e es­paço hu­ma­ni­zado. Eu po­de­ria ape­nas co­men­tar a qua­li­dade do ar­tigo, po­rém essa breve in­tro­du­ção, le­vou a esse en­ten­di­mento (o ótimo tra­ba­lho de Bruno Gon­çal­ves). Sou es­tu­dante do pri­meiro ano de Ge­o­gra­fia e este ar­tigo in­flu­en­ciou, para com­ple­men­tar, meu tra­ba­lho acadêmico.

Kaynana disse:

Bom, gos­tei dessa te­o­ria de mundo frag­men­tado. Pre­ci­sava fa­zer um tra­ba­lho so­bre so­ci­a­li­za­ção por frag­men­tos e con­se­gui ti­rar mui­tas coi­sas da­qui. To­dos sa­be­mos que no mundo de hoje não pre­ci­sa­mos mais ler um li­vro para sa­ber de algo, po­de­mos sim­plrs­mente li­gar o com­pu­ta­dor e di­gi­tar a per­gunta que sem­pre te­re­mos res­pos­tas, nem sem­pre cer­tas, mas sem­pre te­re­mos respostas.

Puxa es­tou me sur­pre­en­dendo, só te­nho 15 anos e já penso as­sim. Acho que isso é um bom si­nal. ;)

Obri­gado pela ajuda ai. Valeu!

Iara Paloma disse:

Nossa, ado­rei ao ver que de­ve­mos vol­tar aos tem­pos an­ti­gos e além de ir a in­ter­net, po­de­mos ir a biblioteca.

Iara Pa­loma, de Itapebi.

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