Pierre Lévy e a Cibercultura: 2

quarta-feira, 5 de maio de 2010 12:49
Cibercultura, Comunicação, Livros

Dando con­ti­nui­dade à aná­lise do li­vro Ci­ber­cul­tura, de Pi­erre Lévy, acre­dito que, para va­lo­ri­zar o tema, é pre­ciso não limitar-se ape­nas aos con­cei­tos cri­a­dos por Lévy. As­sim, nos pró­xi­mos tex­tos que pu­bli­ca­rei, tam­bém vou apre­sen­tar al­gu­mas pro­pos­tas de ou­tros pen­sa­do­res e tra­çar paralelos.

Avanço tec­no­ló­gico co­la­bora para a trans­for­ma­ção da leitura

Ape­sar de jul­gar ser esta a me­lhor op­ção de tra­ba­lho, o en­fo­que maior ainda será a apre­sen­ta­ção e o de­bate das ideias do fi­ló­sofo fran­cês. Para ini­ciar, vou co­men­tar so­bre as de­fi­ni­ções que fo­ram pro­pos­tas na in­tro­du­ção e no pri­meiro ca­pí­tulo do li­vro, “As tec­no­lo­gias têm um im­pacto?”.

Nos ví­deos apre­sen­ta­dos no post an­te­rior, po­de­mos cons­ta­tar a de­fesa de vá­rios con­cei­tos que fun­da­men­tam os pen­sa­men­tos do au­tor. Por exem­plo, ao res­pon­der uma per­gunta em en­tre­vista ao Roda Viva, ele pra­ti­ca­mente re­pro­du­ziu uma ideia que é ex­posta na in­tro­du­ção de Ci­ber­cul­tura, com­pa­rando a pas­sa­gem do di­lú­vio de Noé ao que cha­mou de se­gundo di­lú­vio, o in­for­ma­ci­o­nal. “Na au­rora do di­lú­vio in­for­ma­ci­o­nal, tal­vez uma me­di­ta­ção so­bre o di­lú­vio bí­blico possa nos aju­dar a com­pre­en­der me­lhor os no­vos tem­pos”. As­sim como no li­vro, neste pri­meiro ví­deo po­de­mos vê-lo des­cre­ver a im­pos­si­bi­li­dade de ten­tar for­mar uma nova “arca” com uma se­le­ção que re­pre­sente o todo, uma vez que o todo está – e con­ti­nu­ará – so­frendo trans­for­ma­ções cons­tan­tes e ace­le­ra­das de­vido aos efei­tos da ci­ber­cul­tura e, ainda como é mos­trado no pri­meiro ca­pí­tulo, gra­ças as con­di­ções pro­pi­ci­a­das pe­los avan­ços tec­no­ló­gi­cos, prin­ci­pal­mente no ciberespaço.

Ví­deo “As Leis da Ci­ber­cul­tura”, de Ro­zane Su­zart Gesteira

Es­sas mu­dan­ças cons­tan­tes na so­ci­e­dade, na co­mu­ni­ca­ção, na cul­tura, na pro­du­ção do sen­tido, na pro­du­ção ar­tís­tica, por sua vez, não são de­ter­mi­na­das por “im­pac­tos” ge­ra­dos pe­las no­vas tec­no­lo­gias, mas sim, são “con­di­ci­o­na­das” por meio de­las. Pri­mei­ra­mente, Lévy faz opo­si­ção so­bre essa li­nha de pen­sa­mento: “[...] fala-se mui­tas ve­zes no ‘im­pacto’ das no­vas tec­no­lo­gias da in­for­ma­ção so­bre a so­ci­e­dade ou a cul­tura. A tec­no­lo­gia se­ria algo com­pa­rá­vel a um pro­jé­til [...] e a cul­tura ou a so­ci­e­dade a um alvo vivo... Esta me­tá­fora bé­lica é cri­ti­cá­vel em vá­rios sen­ti­dos”. Pos­te­ri­or­mente, ele pro­põe que as tec­no­lo­gias da in­for­ma­ção – e da co­mu­ni­ca­ção – são re­sul­ta­dos das in­ter­ven­ções so­ci­ais e cul­tu­rais. “De­fendo, ao con­trá­rio, que a téc­nica é um ângulo de aná­lise dos sis­te­mas sócio-técnicos glo­bais, um ponto de vista que en­fa­tiza a parte ma­te­rial e ar­ti­fi­cial dos fenô­me­nos hu­ma­nos, e não uma en­ti­dade real, que exis­ti­ria in­de­pen­dente do resto, que te­ria efei­tos dis­tin­tos e agi­ria por von­tade pró­pria. [...] Por trás das téc­ni­cas agem e re­a­gem idéias, pro­je­tos so­ci­ais, uto­pias, in­te­res­ses econô­mi­cos, es­tra­té­gias de po­der, toda a gama dos jo­gos dos ho­mens em sociedade”.

Para con­cluir o pri­meiro ca­pí­tulo, Lévy ex­plica a grande in­fluên­cia da va­riá­vel ace­le­ra­ção em cau­sar a sen­sa­ção de im­pacto – de es­tra­nheza – “[...] quanto mais rá­pida é a al­te­ra­ção téc­nica, mais nos pa­rece vir do exterior” – e, tam­bém, jun­ta­mente com o ci­be­res­paço e to­dos os avan­ços nas tec­no­lo­gias di­gi­tais, a sua im­por­tân­cia para es­ti­mu­lar a in­te­li­gên­cia co­le­tiva e a ci­ber­cul­tura. “De­vido ao seu as­pecto par­ti­ci­pa­tivo, so­ci­a­li­zante, des­com­par­ti­men­ta­li­zante, eman­ci­pa­dor, a in­te­li­gên­cia co­le­tiva pro­posta pela ci­ber­cul­tura cons­ti­tui um dos me­lho­res re­mé­dios para o ritmo de­ses­ta­bi­li­zante, por ve­zes ex­clu­dente, da mu­ta­ção téc­nica. Mas, neste mesmo mo­vi­mento, a in­te­li­gên­cia co­le­tiva tra­ba­lha ati­va­mente para a ace­le­ra­ção dessa mutação”.

Para fi­na­li­zar este se­gundo texto so­bre o li­vro “Ci­ber­cul­tura”, po­de­mos con­cluir que, para Pi­erre Lévy, as am­bi­ções so­ci­ais e cul­tu­rais são os mo­to­res para o for­ta­le­ci­mento e de­sen­vol­vi­mento da ci­ber­cul­tura. Por­tanto, to­das as tec­no­lo­gias, téc­ni­cas, e ar­ti­fí­cios fí­si­cos – ma­te­ri­ais – que es­tão li­ga­dos à ela, como a in­for­má­tica, o ci­be­res­paço, a in­ter­net, as no­vas mí­dias so­ci­ais, en­tre ou­tros, são fru­tos – con­sequên­cia – des­sas am­bi­ções, e não o con­trá­rio, im­po­si­ções de “en­ti­da­des exteriores”.

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3 comentários em:

Pierre Lévy e a Cibercultura: 2

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Caro Bruno e de­mais in­ter­nau­tas,
para que pos­sa­mos en­ten­der os con­cei­tos e as pro­pri­e­da­des tra­ba­lha­das por Lévy é bom tam­bém ler­mos Ma­nuel Cas­tells (Co­mu­ni­ca­ção e Po­der; So­ci­e­dade em rede). In­clu­sive este 1º li­vro (Co­mu­ni­ca­çãoe e Po­der) é uma das re­fe­rên­cias para es­tu­dos nos pró­xi­mos 10 anos, de­vido sua atu­a­li­dade nos es­tu­dos e por apre­sen­tar da­dos e análises.

Lévy, ao tra­tar da ci­ber­cul­tura, nos aponta para uma mu­dança de pa­ra­dig­mas. Es­ta­mos - se­gundo meus es­tu­dos - no meio desta que­bra, mas ainda há muita coisa a ser realizada.

Fun­da­men­tal é ob­ser­var­mos que o fa­tor tec­no­lo­gia não muda a so­ci­e­dade, mas é a so­ci­e­dade que muda a tec­no­lo­gia, ao re­sig­ni­fi­car as ações hu­ma­nas e apre­sen­tar fer­ra­men­tas e in­ter­fa­ces que pro­pi­ciem ao ser hu­mano fa­zer mais em pouco tempo ou fa­zer me­lhor em pouco tempo...
Ê... é papo para muita con­versa. Por hora con­ti­nu­e­mos estudando.

Prof. Me. Fer­nando Pi­men­tel (UFAL)

Luciana Gomes disse:

Olá, muito le­gal o seu blog, vi o link em uma co­mu­ni­dade do or­kut e gos­tei bas­tante, pas­sa­rei sem­pre por aqui. Parabéns!

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