Pão e circo, digo, TV

quarta-feira, 27 de maio de 2009 13:49 1 comentário Jornalismo, Reflexão

Acabo de al­mo­çar com a mi­nha fa­mí­lia e tive a opor­tu­ni­dade de pre­sen­ciar um “de­bate”, no mí­nimo, cu­ri­oso. Meus pais e ir­mãos es­ta­vam co­men­tando so­bre a guerra de au­di­ên­cia na TV que ocorre en­tre Ma­lha­ção (Globo), Ra­ti­nho (SBT), Da­tena (Band) e Pica-​​Pau (Re­cord). Es­ses pro­gra­mas são trans­mi­ti­dos en­tre o ho­rá­rio das 17h30 e 18h30.

Con­forme pude apu­rar – afi­nal, as fon­tes não são muito con­fiá­veis –, o Ra­ti­nho está de­cla­rando que con­quis­tou o se­gundo lu­gar em au­di­ên­cia. Esse foi o fato que ini­ciou toda a dis­cus­são na mesa. Po­rém, dis­tante de que­rer con­cluir quem é re­al­mente o lí­der de au­di­ên­cia, vou ape­nas tra­çar um pa­ra­lelo e fa­zer uma breve aná­lise so­bre ou­tras ques­tões. Não me in­te­ressa o ran­king, me in­te­ressa o que es­tão mos­trando para as pessoas.

Pri­meiro, o per­fil de cada um dos pro­gra­mas apre­sen­tam di­fe­ren­ças. Ma­lha­ção é uma “no­vela” vol­tada ao pú­blico ado­les­cente, abor­dando as­sim te­mas – tchu­qui, tchu­qui – re­la­ci­o­na­dos a essa fase da vida. O Ra­ti­nho apre­senta um pro­grama de au­di­tó­rio com re­por­ta­gens cu­ri­o­sas, no­tí­cias po­pu­la­res, hu­mor ne­gro, con­tando com qua­dros que ge­ram po­lê­mica. O Bra­sil Ur­gente, apre­sen­tado pelo Da­tena, é um te­le­jor­nal que ex­plora no­tí­cias vi­o­len­tas e pro­ble­mas so­ci­ais, pau­tado pe­las crí­ti­cas – mui­tas ve­zes des­fo­ca­das – de seu apre­sen­ta­dor. O Pica-​​Pau, como to­dos sa­bem, é um de­se­nho de muito su­cesso, muito bem hu­mo­rado, que con­se­gue agra­dar tanto as cri­an­ças, como jo­vens e adultos.


Baixa qualidade na programação da TV garante audiência para o Pica-Pau

Se­gundo, os gran­des ca­nais de te­le­vi­são se de­di­cam, cada vez mais, a bri­gar por mai­o­res índi­ces de au­di­ên­cia. Essa briga é jus­ti­fi­cada pe­los es­pa­ços pu­bli­ci­tá­rios, que aca­bam sendo va­lo­ri­za­dos e são os prin­ci­pais res­pon­sá­veis por ge­rar re­ceita para os ca­nais. Dessa forma, ana­li­sando sob o ponto de vista co­mer­cial, o índice de au­di­ên­cia acaba sendo mais im­por­tante do que a qua­li­dade do con­teúdo dos programas.

Ter­ceiro, e mais im­por­tante, é o grande pú­blico es­pec­ta­dor. O po­vão, essa massa tra­ba­lha­dora que sus­tenta o Bra­sil, que não acesso a edu­ca­ção de qua­li­dade, a saúde, a cul­tura, ao la­zer, a in­clu­são di­gi­tal. Esse mesmo povo é o “alvo” da pro­gra­ma­ção de baixo teor crí­tico ge­rado pe­los gran­des ca­nais aber­tos, que apre­sen­tam um mundo de fal­sas fan­ta­sias, per­so­na­gens do co­ti­di­ano que so­frem com a cri­mi­na­li­dade, ba­na­li­za­ção dos va­lo­res mo­rais e éti­cos, dis­cus­sões me­dío­cres. Ou é isso, es­tam­pado na nossa cara, ou é nada disso. Tem aque­les que pre­fe­rem ape­nas fa­zer o po­vão rir para es­que­cer as des­gra­ças da vida – He, he, he, he!

A po­lí­tica do pão e circo nunca aca­bou. Ape­nas foi trans­for­mada. E hoje, não pre­ci­sa­mos nem ir até o circo, afi­nal, o circo vem até nós. Essa po­lí­tica de ali­e­na­ção só irá aca­bar, para cada um de nós, no mo­mento em que de­ci­dir­mos quem é o pa­lhaço. Se é o grande ca­nal de te­le­vi­são com con­teúdo me­dío­cre ou se so­mos nós telespectadores.

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Mario disse:

Ótimo texto! A TV é o ver­da­deiro “pão é circo” do se­culo XXI! :D

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