Distinto olhar

quarta-feira, 8 de abril de 2009 09:37
Comunicação, Cotidiano, Design Gráfico, Opinião, Propaganda

A pa­la­vra fo­to­gra­fia sig­ni­fica “es­cre­ver – de­se­nhar – com a luz”. Essa téc­nica, que tem pouco mais de um sé­culo e meio de exis­tên­cia, tem sido res­pon­sá­vel, desde que sur­giu, por mo­di­fi­car pro­fun­da­mente a ma­neira como as pes­soas to­mam co­nhe­ci­mento e in­te­ra­gem com o mundo.

An­tes da fo­to­gra­fia, ha­via uma grande di­fi­cul­dade para que uma cena ou a ima­gem de uma pes­soa fosse re­pro­du­zida no pa­pel e “me­mo­ri­zada”, sendo ne­ces­sá­rio o tra­ba­lho de um ar­tista que do­mi­nasse a téc­nica da pin­tura ou da ilus­tra­ção. Já hoje, com a po­pu­la­ri­za­ção dos equi­pa­men­tos fo­to­grá­fi­cos – prin­ci­pal­mente os di­gi­tais – e o apoio da in­for­má­tica, a fo­to­gra­fia tem sido um re­curso cons­tan­te­mente pre­sente em nos­sas vi­das. As fo­tos das pes­soas que ama­mos, de nos­sos ami­gos, das oca­siões im­por­tan­tes de nossa vida, de vi­a­gens, e até dos nos­sos ani­mais de es­ti­ma­ção, são mar­can­tes e ex­tre­ma­mente im­por­tan­tes para nos fa­zer re­vi­ver mo­men­tos fe­li­zes de nos­sas vi­das. Além disso, é tam­bém atra­vés da fo­to­gra­fia que co­nhe­ce­mos mui­tos lu­ga­res e pes­soas sem nunca ter­mos tido con­tato com eles. Des­co­bri­mos e vi­ve­mos um mundo novo que nos é apre­sen­tado atra­vés do pa­pel – ou de uma tela de computador.

Es­ta­mos em con­tato com fo­to­gra­fias pra­ti­ca­mente o tempo todo. Nos jor­nais e re­vis­tas, as no­tí­cias pre­ci­sam de ima­gens para ilus­trar os fa­tos. As pro­pa­gan­das nos veí­cu­los im­pres­sos de­pen­dem das fo­tos para apre­sen­tar os pro­du­tos e des­per­tar o in­te­resse dos con­su­mi­do­res. Nas ruas, te­mos out­do­ors, fa­cha­das, pla­cas, car­ta­zes e, ge­ral­mente, to­dos uti­li­zam fo­to­gra­fias para cha­mar a nossa aten­ção, para nos apre­sen­tar al­guma coisa. Em nos­sas ca­sas, as fo­to­gra­fias es­tão em porta-retratos es­pa­lha­dos pe­los quar­tos, na sala, na es­tante. No es­cri­tó­rio, es­tão em cima da mesa ou na pa­rede. Na In­ter­net, es­tão nos por­tais de no­tí­cias, nos blogs, nos álbuns vir­tu­ais, nas re­des so­ci­ais. E até mes­mos nos ví­deos, que nada mais são do que mui­tas fo­to­gra­fias se­quen­ci­ais exi­bi­das em cur­tos in­ter­va­los de tempo, dando-nos a sen­sa­ção de movimento.

Ape­sar do grande vo­lume de fo­to­gra­fias e da fa­ci­li­dade que en­con­tra­mos para produzí-las, hoje são pou­cos os in­di­ví­duos que, ver­da­dei­ra­mente, são ar­tis­tas na arte de “es­cre­ver com a luz”. É no­tá­vel que a po­pu­la­ri­za­ção da tec­no­lo­gia das câ­me­ras di­gi­tais foi a grande res­pon­sá­vel pelo “boom” da pro­du­ção fo­to­grá­fica. Com a re­du­ção drás­tica dos cus­tos, eli­mi­nando os fil­mes e a sua re­ve­la­ção, hoje qual­quer acon­te­ci­mento co­ti­di­ano, que an­tes era des­pre­zado, acaba se trans­for­mando em tema para uma foto. Po­rém, ape­sar de to­das as fa­ci­li­da­des e dos re­cur­sos pre­sen­tes nas câ­me­ras, o pa­pel do fo­tó­grafo pro­fis­si­o­nal ainda é – e sem­pre será – o grande di­fe­ren­cial para a pro­du­ção de uma foto marcante.

A par­tir dessa pre­missa, é fá­cil di­fe­ren­ciar as fo­tos pro­du­zi­das por uma pes­soa co­mum – ama­dor – das fo­to­gra­fias cri­a­das por um bom pro­fis­si­o­nal. E não são ape­nas as ques­tões téc­ni­cas que fa­zem a di­fe­rença, mas, prin­ci­pal­mente, o olhar dis­tinto do fo­tó­grafo, que con­se­gue re­gis­trar a emo­ção de um mo­mento e transmiti-la atra­vés de suas imagens.

Acima, ima­gens do fo­tó­grafo Ota­vio Valle

Um exem­plo é o tra­ba­lho de Ota­vio Valle. Em seu blog “Olho no ce­lu­lar”, o fo­tó­grafo mos­tra que é pos­sí­vel pro­du­zir be­las ima­gens – do ponto de vista ar­tís­tico – utilizando-se os re­cur­sos téc­ni­cos es­cas­sos que são ofe­re­ci­dos pe­las câ­me­ras de apa­re­lhos celulares.

A idéia do blog Olho no Celular é postar somente imagens que produzo em meu celular. A proposta é brincar com a linguagem através dos recursos possíveis da câmera do telefone.
Otavio Valle

Ape­sar de ser ní­tida a di­fe­rença de qua­li­dade do tra­ba­lho de um fo­tó­grafo ama­dor e um pro­fis­si­o­nal, uma ques­tão pro­ble­má­tica nos dias de hoje é que, com as fa­ci­li­da­des ofe­re­ci­das pe­los equi­pa­men­tos di­gi­tais, mui­tos ama­do­res es­tão “ocu­pando” o es­paço dos fo­tó­gra­fos pro­fis­si­o­nais. Basta ana­li­sar um pouco o ce­ná­rio, tanto nos es­tú­dios de fo­to­gra­fia como nas em­pre­sas de co­mu­ni­ca­ção – jor­nais, re­vis­tas, as­ses­so­rias, agên­cias. Em al­guns jor­nais e re­vis­tas – pe­que­nos ou não –, é co­mum ver jor­na­lis­tas as­su­mindo o pa­pel de re­da­tor e, ao mesmo tempo, de fo­tó­grafo. Sem fa­lar nos de­par­ta­men­tos co­mer­ci­ais, onde nota-se que mui­tos con­ta­tos co­mer­ci­ais car­re­gam suas “ca­me­ri­nhas” di­gi­tais para fo­to­gra­far anun­ci­an­tes e pro­du­tos com a in­ten­ção de re­du­zir o tempo de pro­du­ção – e, con­se­quen­te­mente, a qua­li­dade fi­nal da peça de co­mu­ni­ca­ção. Esse mesmo pro­blema ocorre tam­bém em vá­rias “agên­cias” de pu­bli­ci­dade, que ado­tam essa prá­tica de fo­to­gra­far sem pro­du­ção adequada.

Se por um lado a tec­no­lo­gia di­gi­tal che­gou para aju­dar a po­pu­la­ri­za­ção da fo­to­gra­fia, tor­nando essa téc­nica aces­sí­vel para mais pes­soas, por ou­tro está co­la­bo­rando para que o tra­ba­lho de qua­li­dade de bons fo­tó­gra­fos seja subs­ti­tuído pelo tra­ba­lho ama­dor de pes­soas que não es­tão pre­o­cu­pa­dos com o re­sul­tado fi­nal, mas sim com a re­du­ção de cus­tos e tempo. Dessa forma, o que se nota com frequên­cia em pe­ças de co­mu­ni­ca­ção – ela­bo­rada por “pro­fis­si­o­nais” –, é a uti­li­za­ção de ima­gens de baixa qua­li­dade, tanto nos as­pec­tos téc­ni­cos como nos artísticos.

Con­tudo, ape­sar de to­dos os pro­ble­mas que sur­gi­ram com a mu­dança de com­por­ta­mento frente a tec­no­lo­gia di­gi­tal, in­de­pen­dente de uma ima­gem ser re­sul­tado do tra­ba­lho de um pro­fis­si­o­nal, es­tam­pando ca­pas de jor­nais e re­vis­tas, ou ser pro­duto de um ama­dor, uma pes­soa co­mum que re­gis­tra os pri­mei­ros pas­sos do fi­lho ou a reu­nião de fa­mí­lia no na­tal, a fo­to­gra­fia está – e sem­pre es­tará – pre­sente em nos­sas vi­das, tendo muito va­lor para a for­ma­ção de nossa me­mó­ria e de nossa personalidade.

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1 comentário em:

Distinto olhar

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Otavio Valle disse:

Bruno, muito boa sua aná­lise e o pai­nel que você apre­senta aqui. Fico muito hon­rado em ser citado...

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