Cada um no seu quadrado

sábado, 7 de março de 2009 12:15
Cotidiano, Opinião, Para pensar

Mui­tas pes­soas têm o de­feito de acre­di­tar que o seu um­bigo é o cen­tro do uni­verso. Com pou­cas ex­ce­ções, o in­di­ví­duo que adota essa pos­tura, fre­quen­te­mente, age de forma pre­con­cei­tu­osa em re­la­ção a tudo o que não se­gue a sua ló­gica de pen­sa­mento, não se en­qua­dra nos seus va­lo­res – pes­so­ais, pro­fis­si­o­nais, mo­rais –, não ocorre no seu co­ti­di­ano, ou, pior ainda, não faz parte do seu re­per­tó­rio e ex­pe­ri­ên­cia. As­sim, es­ses fa­to­res, na mai­o­ria dos ca­sos, li­mi­tam esse in­di­ví­duo a ela­bo­rar um jul­ga­mento in­te­li­gente, uma vez que, nor­mal­mente, não dis­põe de co­nhe­ci­men­tos e re­cur­sos para fa­zer ava­li­a­ções co­e­ren­tes e al­can­çar con­clu­sões sensatas.

Pode até pa­re­cer um exa­gero, mas basta ob­ser­var um pouco as pes­soas – e, prin­ci­pal­mente, nós mes­mos – para no­tar que no dia-a-dia ocor­rem inú­me­ras si­tu­a­ções em que nos de­pa­ra­mos com gente – ou so­mos o pró­prio su­jeito – que age “como se ti­vesse o rei na bar­riga” ou acha que a ver­dade su­prema do mundo está toda den­tro de sua ca­beça. O que esse in­di­ví­duo acre­dita – e de­fende – é “lei”, está certo. O que as ou­tras pes­soas pen­sam e que con­tra­di­zem a sua opi­nião é “crime”, está errado.

Nas re­la­ções en­tre as pes­soas, sem­pre ocor­re­rão con­fli­tos em di­ver­sas ques­tões. Quando nos en­con­tra­mos no meio de um con­flito, nor­mal­mente te­mos duas op­ções. A pri­meira op­ção, pe­nosa, é en­fren­tar o ponto-de-vista con­trá­rio, ex­pondo ar­gu­men­tos para de­fen­der a nossa opi­nião e para con­tra­riar a opi­nião oposta. Po­rém, não es­pere que o “ad­ver­sá­rio” aceite com fa­ci­li­dade os seus ar­gu­men­tos. Ao fi­nal, o que ge­ral­mente acon­tece após o en­fren­ta­mento de idéias, é criar má­goas en­tre as pes­soas. A se­gunda op­ção, não me­nos pe­nosa, é nos com­por­ta­mos como “al­face”. Para evi­tar do­res de ca­beça – e perda de tempo – com dis­cus­sões que, nor­mal­mente, não ge­ram be­ne­fí­cios, po­de­mos op­tar por “que­brar” o diá­logo com o in­di­ví­duo que acre­dita ser o “dono da ra­zão” e dei­xar que ele ar­gu­mente com in­ten­si­dade para sa­tis­fa­zer o seu pró­prio ego. Ao fi­nal da con­versa – uni­la­te­ral –, cada um pre­ser­vará o seu ponto-de-vista e os dois po­de­rão man­ter um bom relacionamento.

Como li­ção, es­sas si­tu­a­ções po­dem en­si­nar – para aque­les que que­rem apren­der – que é im­por­tante res­pei­tar as di­fe­ren­ças. Aque­les que es­tão apren­dendo a ser to­le­ran­tes e a res­pei­tar o fato de que cada pes­soa tem o di­reito de pen­sar e de agir da forma que for mais con­ve­ni­ente com a sua re­a­li­dade, a sua vida e aos seus va­lo­res, es­tão dando um grande passo para se tor­nar in­di­ví­duos mais fle­xí­veis e inteligentes.

É pre­ciso en­ten­der que as nos­sas ex­pe­ri­ên­cias pes­so­ais e pro­fis­si­o­nais, nos­sas ami­za­des, cos­tu­mes, re­la­ções fa­mi­li­a­res, nossa edu­ca­ção, cul­tura, re­li­gião, e tudo o que faz parte do nosso co­ti­di­ano, são agre­ga­dos ao nosso re­per­tó­rio e con­tri­buem para for­mar a nossa per­so­na­li­dade. Por­tanto, ape­sar da re­dun­dân­cia, cada in­di­ví­duo é único e in­com­pa­rá­vel, tem a sua forma de pen­sar em re­la­ção a tudo o que é ex­posto de novo em sua vida, e tem a sua opi­nião pró­pria e os seus valores.

As­sim, como diz o re­frão de uma mú­sica que até se tor­nou gí­ria po­pu­lar – e que eu sin­ce­ra­mente não gosto, mas devo to­le­rar e acei­tar que as pes­soas ou­çam –, cada um no seu quadrado.

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