Escute, entenda e pense

terça-feira, 21 de outubro de 2008 09:56 2 comentários Reflexão

Mui­tas pes­soas têm o ter­rí­vel há­bito de fa­zer pré-​​julgamentos so­bre ques­tões às quais são ex­pos­tas sem an­tes re­fle­tir e bus­car um mí­nimo de in­for­ma­ções e de co­nhe­ci­men­tos so­bre o as­sunto. Agindo dessa ma­neira, elas não es­ta­rão pre­pa­ra­das para de­fi­nir uma opi­nião sen­sata e, muito me­nos, ap­tas para de­fen­der uma po­si­ção, seja ela a fa­vor ou contra.

Dê a todas as pessoas seus ouvidos,
mas a poucas a sua voz.
William Shakespeare

Ser fa­vo­rá­vel às ino­va­ções que al­can­çam su­cesso na so­ci­e­dade não de­ter­mina que o in­di­ví­duo es­teja ape­nas bus­cando uma si­tu­a­ção de co­mo­dismo, con­forto ou mo­dismo e, por isso, não es­tará aberto para as mu­dan­ças e as crí­ti­cas. As­sim como ser con­trá­rio às ino­va­ções não im­plica em ro­tu­lar tudo como sem va­lor ou qua­li­dade, como er­rado, que possa ser ig­no­rado ou que pre­cisa ser modificado.

As pes­soas não de­vem sem­pre con­cor­dar com o que lhes é apre­sen­tado. Pelo con­trá­rio, é pre­ciso exer­ci­tar a di­ver­gên­cia de idéias, pois é ela que, sem dú­vida al­guma, é uma das prin­ci­pais va­riá­veis da equa­ção que de­ter­mina as mu­dan­ças no mundo e con­tri­bui para a evo­lu­ção da hu­ma­ni­dade. É o ato de dis­cor­dar com o que existe e com o que nos é apre­sen­tado como no­vi­dade ou como ver­dade su­prema que gera a busca por me­lho­res so­lu­ções em to­das as áreas do co­nhe­ci­mento hu­mano. Mas é es­sen­cial, an­tes de dis­cor­dar de qual­quer coisa, ter co­nhe­ci­mento e cons­ci­ên­cia do que es­tará discordando.

Quem decide um caso sem ouvir a outra
parte não pode ser considerado justo,
ainda que decida com justiça.
Sêneca

Se não ti­vés­se­mos ne­ces­si­da­des e opi­niões con­trá­rias à re­a­li­dade a qual vi­ve­mos, não ha­ve­ria mo­ti­vos para es­tar­mos sem­pre bus­cando transformá-​​la e melhorá-​​la. É essa con­di­ção de in­qui­e­tude que nu­tre a nossa von­tade de bus­car cons­tan­te­mente no­vas al­ter­na­ti­vas para so­lu­ções de pro­ble­mas que, em mui­tos ca­sos, já fo­ram so­lu­ci­o­na­dos an­te­ri­or­mente de ou­tras maneiras.

A ques­tão fun­da­men­tal em toda essa ex­pla­na­ção so­bre as mu­dan­ças e ino­va­ções não é o jul­ga­mento pro­pri­a­mente dito, mas a forma como ele é feito. Os con­fli­tos de idéias so­bre um de­ter­mi­nado tema, quando bem em­ba­sa­dos e bem ar­gu­men­ta­dos, con­tri­buem para a ob­ten­ção, no fi­nal, de um re­sul­tado po­si­tivo e cons­tru­tivo, seja a fa­vor ou con­tra. Agora, a dis­cus­são sem base para ar­gu­men­ta­ção, seja ci­en­tí­fica, mo­ral, ética, po­lí­tica, es­pi­ri­tual, ou até mesmo pes­soal, me­ra­mente no plano do con­fronto di­reto de ide­ais des­to­an­tes, sur­gem como um ácido que cor­rói, não pro­por­ci­o­nando a cons­tru­ção de uma con­clu­são ra­ci­o­nal. É dessa forma que qual­quer de­bate so­bre qual­quer as­sunto perde ao fi­car ape­nas no em­bate pes­soal e emo­ci­o­nal. E sa­be­mos que, nor­mal­mente, quando não há ar­gu­men­ta­ção ra­ci­o­nal para o de­bate in­te­li­gente, a al­ter­na­tiva acaba sendo a dis­cus­são ignorante.

Um bom ouvinte tenta entender a fundo o que a outra pessoa está falando. No final pode discordar severamente, mas antes que discorde, quer saber exatamente do que é que ele está discordando.
Kenneth A. Wells

Por isso, o ideal an­tes de ex­pres­sar sua opi­nião so­bre qual­quer as­sunto, é le­van­tar in­for­ma­ções, ad­qui­rir co­nhe­ci­men­tos e pre­pa­rar ar­gu­men­tos para dar con­sis­tên­cia ao seu po­si­ci­o­na­mento, seja atra­vés de fon­tes de re­fe­rên­cia con­fiá­veis, quando há tempo ou con­di­ções para isso seja feito, ou, até mesmo, com as suas pró­prias ex­pe­ri­ên­cias de vida, le­vando em conta a sua re­a­li­dade, desde que ela seja per­ti­nente ao que será debatido.

Do con­trá­rio, o si­lên­cio não sig­ni­fica, ne­ces­sa­ri­a­mente, a con­cor­dân­cia, mas pode ser uti­li­zado como um ar­ti­fí­cio para evi­tar a ex­po­si­ção de uma opi­nião pre­con­cei­tu­osa. Ou­tra op­ção efi­caz é fa­zer um ques­ti­o­na­mento su­til para que, as­sim, seja pos­sí­vel con­se­guir mais in­for­ma­ções atra­vés do pró­prio in­ter­lo­cu­tor, o que po­derá au­xi­liar a em­ba­sar ques­ti­o­na­men­tos com mais pro­fun­di­dade e ge­rar um de­bate mais cons­ci­ente, rico e positivo.

Por­tanto, é fun­da­men­tal para o su­cesso em qual­quer de­bate ter a pa­ci­ên­cia de es­cu­tar para po­der en­ten­der e de pen­sar para po­der fa­lar e ar­gu­men­tar com in­te­li­gên­cia e clareza.

2 comentários em:

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Márcio disse:

Raul Sei­xas disse um dia que ele não pre­ci­sa­ria es­cre­ver um li­vro in­teiro para di­zer so­bre ape­nas um as­sunto.
Ele se achava ca­paz de re­su­mir o as­sunto em uma es­trofe de mú­sica.
E eu sin­ce­ra­mente acho que ele tam­bém era ca­paz.
É como ar­gu­men­tar, é pre­ciso co­nhe­cer para de­pois dar sua opi­nião, se pos­sí­vel de forma breve e direta.

Lindy disse:

Amore.…
Es­tava ins­pi­rado hein.… rs
Con­cordo com quase tudo que você es­cre­veu, só acho que dei­xou de pen­sar na em­pa­tia e na con­di­ção do re­cep­tor, que nem sem­pre apto para re­ce­ber a men­sa­gem da forma ade­quada, seja por falta de pa­ci­ên­cia com o as­sunto ou ego­cen­trismo (ter in­te­res­ses pes­so­ais di­fe­ren­tes no mo­mento em que a men­sa­gem está sendo trans­mi­tida)
Amo vc
bjo
Lindy

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