Blogueiro tem que ser jornalista?

quarta-feira, 1 de outubro de 2008 12:54
Comunicação, Cotidiano, Opinião

A in­ter­net tem sido palco, no­va­mente, de um “ve­lho” de­bate: o blo­gueiro exerce a fun­ção do jornalista?

A dis­cus­são em torno desta ques­tão tem se in­ten­si­fi­cado a cada dia.

Os dois la­dos – blo­guei­ros e jor­na­lis­tas – de­fen­dem seus “in­te­res­ses” atra­vés de muita argumentação.

Por um lado, os jor­na­lis­tas con­tes­tam, en­tre ou­tros pon­tos, a com­pe­tên­cia pes­soal e pro­fis­si­o­nal de blo­guei­ros em de­sem­pe­nhar o pa­pel de co­mu­ni­ca­dor para a massa, a falta de “fun­da­men­ta­ção aca­dê­mica” e ques­tões re­fe­ren­tes à le­gis­la­ção bra­si­leira, em que a obri­ga­to­ri­e­dade de pos­suir o di­ploma para exer­cer a pro­fis­são de jor­na­lista, até hoje, ainda não tem uma de­fi­ni­ção final.

Por ou­tro lado, os blo­guei­ros – prin­ci­pal­mente aque­les com grande in­fluên­cia na blogs­fera e na in­ter­net – de­fen­dem, en­tre ou­tros as­pec­tos, a li­ber­dade de ex­pres­são, a com­pe­tên­cia de mui­tos blo­guei­ros em apu­rar as in­for­ma­ções com mais pro­fun­di­dade e mais qua­li­dade que jor­na­lis­tas e veí­cu­los de im­prensa tra­di­ci­o­nais, e a in­de­pen­dên­cia para po­de­rem pu­bli­car as suas opi­niões sem es­ta­rem pre­sos aos in­te­res­ses po­lí­ti­cos, econô­mi­cos ou pes­so­ais que, em mui­tos ca­sos, nor­teiam o con­teúdo de mui­tos veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção que per­ten­cem a gran­des gru­pos empresariais.

Ou­tra ques­tão im­por­tante é o fato de a in­ter­net e os blogs es­ta­rem mu­dando pa­ra­dig­mas, uma vez que, com muita força, es­tão que­brando o pri­vi­lé­gio dos veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção tra­di­ci­o­nais de ge­rar e pro­pa­gar in­for­ma­ções e opi­niões com grande au­di­ên­cia. E essa cons­ta­ta­ção não é re­cente. Basta sa­ber que, ano após ano, os nú­me­ros apon­tam que­das cons­tan­tes dos nú­me­ros de ti­ra­gem e de cir­cu­la­ção de gran­des jor­nais e re­vis­tas do mundo, e fa­zer uma re­fle­xão so­bre os índi­ces de au­di­ên­cia dos gran­des ca­nais de TV e seus pro­gra­mas jor­na­lís­ti­cos, que es­tão cada vez me­no­res e mais di­vi­di­dos, pois já não tem os mes­mos im­pac­tos frente aos es­pec­ta­do­res como ti­nham an­tes. Cer­ta­mente sen­tem al­guns dos re­fle­xos da in­ter­net, como os blogs e o You­tube, e, tam­bém, pelo fato de seus con­teú­dos “jor­na­lís­ti­cos” já não se­rem mais as­sim tão “fantásticos”.

Além disso, ou­tro ponto a fa­vor dos blogs – e o mais re­le­vante – é a pos­si­bi­li­dade de o es­pec­ta­dor po­der fa­zer co­men­tá­rios so­bre o con­teúdo pu­bli­cado. É atra­vés des­tes co­men­tá­rios que a co­mu­ni­ca­ção se exe­cuta de ma­neira com­pleta, com um emis­sor trans­mi­tindo uma men­sa­gem atra­vés de um ca­nal e de um có­digo co­nhe­ci­dos, um re­cep­tor aces­sando essa men­sa­gem, decodificando-a, interpretando-a e for­mando sua opi­nião, e, no fi­nal, tendo a sua re­a­ção con­cre­ti­zada atra­vés da pu­bli­ca­ção de seu co­men­tá­rio com a sua opi­nião pes­soal so­bre o as­sunto abor­dado. Por­tanto, muito di­fe­rente da co­mu­ni­ca­ção uni­la­te­ral que é re­a­li­zada pela mai­o­ria dos veí­cu­los tra­di­ci­o­nais – seja im­presso ou ele­trô­nico –, em que ex­pres­sam a sua opi­nião so­bre os as­sun­tos que são pu­bli­ca­dos e dão pou­cas – ou ne­nhuma – con­di­ções para que os es­pec­ta­do­res pos­sam in­te­ra­gir e ex­pres­sar suas idéias, fa­zendo ape­nas o pa­pel de re­cep­to­res passivos.

Como o blog não tem o com­pro­misso de ser “im­par­cial” como de­fen­dem mui­tos veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção e como o que vale aqui é a opi­nião do blo­gueiro, o meu ponto-de-vista, como pro­fis­si­o­nal de co­mu­ni­ca­ção, é a fa­vor do for­ta­le­ci­mento de to­das as fer­ra­men­tas que pos­sam con­tri­buir para ge­rar opor­tu­ni­da­des de que in­for­ma­ções e no­tí­cias re­le­van­tes para a so­ci­e­dade se­jam dis­se­mi­na­das, fa­cil­mente aces­sa­das e, prin­ci­pal­mente, dis­cu­ti­das com os pú­bli­cos que es­tão en­vol­vi­dos ou te­nham interesse.

Acre­dito que não é im­por­tante dis­cu­tir so­bre blogs e veí­cu­los tra­di­ci­o­nais. Nem so­bre blo­guei­ros e jor­na­lis­tas. Com o tempo, cada um irá en­con­trar a me­lhor forma de as­su­mir seus pa­péis pe­rante a so­ci­e­dade nesse con­texto mun­dial de mu­dan­ças cons­tan­tes. Agora, o que é pre­ciso dis­cu­tir, como já disse aqui, é so­bre quem é o pro­fis­si­o­nal que atua como co­mu­ni­ca­dor, sua qua­li­fi­ca­ção para exe­cu­tar a fun­ção ao qual se de­dica – in­de­pen­dente de ter for­ma­ção es­pe­cí­fica em co­mu­ni­ca­ção – e o pro­duto de seu ofí­cio, se re­al­mente é ex­pres­sivo, tem qua­li­dade e atende as de­man­das e ne­ces­si­da­des sócio-culturais ou empresariais.

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