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Homem ou animal?

Publicado por Bruno Gonçalves em 24 de setembro de 2008 @ 14:17
Tema(s): Reflexão


Na atual busca in­ces­sante por me­lhor efi­ci­ên­cia, as em­pre­sas têm va­lo­ri­zado o trei­na­mento dos fun­ci­o­ná­rios para aper­fei­çoar suas ro­ti­nas de tra­ba­lho, apos­tando nessa grande “ben­fei­to­ria”. Os fa­to­res que são con­si­de­ra­dos como re­sul­ta­dos po­si­ti­vos são ex­pres­sos na re­du­ção dos nú­me­ros de va­riá­veis como tempo, des­per­dí­cio e es­forço, e no au­mento de ou­tras, como agi­li­dade, pro­du­ti­vi­dade e lucro.

O lu­cro, de fato, é o ob­je­tivo pri­mor­dial para qual­quer or­ga­ni­za­ção ca­pi­ta­lista e sem­pre deixa claro que, na ca­beça de grande par­cela dos ges­to­res desse sis­tema econô­mico, a ado­ção de qual­quer fer­ra­menta que possa con­tri­buir para o seu cres­ci­mento é válida.

Por ou­tro lado, o sig­ni­fi­cado da pa­la­vra trei­na­mento tam­bém é ades­tra­mento, como é apre­sen­tado nos di­ci­o­ná­rios da lín­gua por­tu­guesa. No caso, o uso dessa pa­la­vra é evi­tado por ser em­pre­gada por nós, bra­si­lei­ros, para o trei­na­mento ani­mal, que é o pro­cesso ao qual sub­me­te­mos os se­res in­fe­ri­o­res e des­pro­vi­dos de ra­ci­o­na­li­dade para ter res­pos­tas me­câ­ni­cas pro­gra­ma­das para co­man­dos que nós, se­res in­te­li­gen­tes e ra­ci­o­nais, es­ta­be­le­ce­mos. Re­su­mindo a con­versa, em cer­tas si­tu­a­ções, o trei­na­mento na ver­dade é o adestramento.

Numa as­so­ci­a­ção mais pro­funda en­tre o lu­cro e o ades­tra­mento de pes­soas, po­de­mos che­gar à con­clu­são de que os ho­mens são tra­ta­dos como ani­mais, cum­prindo seu pa­pel ao exe­cu­tar ta­re­fas pro­gra­ma­das e or­dens de­ter­mi­na­das, nor­mal­mente, sem ter o co­nhe­ci­mento ma­cro dos mo­ti­vos pe­los quais ele acaba de­sem­pe­nhando suas ati­vi­da­des den­tro das or­ga­ni­za­ções. Quando usa­mos os “ócu­los” da mo­ral pas­sa­mos a en­xer­gar que os ho­mens de­vem ser tra­ta­dos como ho­mens, sendo o fa­tor es­sen­cial para a trans­for­ma­ção de ideias em re­a­li­da­des. O pro­blema, ao meu ver, é que mui­tos ges­to­res es­tão pre­ci­sando usar esse “óculos”.

Ape­sar da me­câ­nica do trei­na­mento ser ter­rí­vel para as pes­soas, é pre­ciso en­ten­der que, nos atu­ais pa­drões de con­sumo e de pro­du­ção, acaba sendo im­pos­sí­vel as em­pre­sas dei­xa­rem de adotá-​​la para po­der se man­ter com­pe­ti­ti­vas no mer­cado. As­sim, a ques­tão não é aca­bar com o trei­na­mento, mas transformá-​​lo em ca­pa­ci­ta­ção. É pre­ciso que as em­pre­sas in­vis­tam in­te­li­gen­te­mente na for­ma­ção de pro­fis­si­o­nais para que de­sem­pe­nhem me­lhor suas fun­ções es­pe­cí­fi­cas – mi­cro – e que co­nhe­çam o pro­cesso como um todo – ma­cro –, para que pos­sam fi­car mais en­vol­vi­dos com a em­presa, tornando-​​se mais efi­ci­en­tes em seus tra­ba­lhos e en­ten­dendo a sua im­por­tân­cia na or­ga­ni­za­ção. Atu­ando dessa ma­neira, as em­pre­sas criam opor­tu­ni­da­des para que as pes­soas pos­sam cres­cer pro­fis­si­o­nal­mente e in­te­lec­tu­al­mente, co­la­bo­rando para que ali­men­tem so­nhos e al­me­jem “vôos mais altos”.

No pre­sente ce­ná­rio caó­tico, onde o ho­mem está per­dendo seus va­lo­res como nos tem­pos da Re­vo­lu­ção In­dus­trial, as em­pre­sas de­vem bus­car mu­dan­ças de pos­tura no tra­ta­mento com seus fun­ci­o­ná­rios. É pre­ciso tra­tar o ho­mem como ho­mem, e não como animal.

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