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Comunicação em xeque

Publicado por Bruno Gonçalves em 29 de agosto de 2008 @ 14:35
Tema(s): Comunicação


Ser pro­fis­si­o­nal de co­mu­ni­ca­ção no Bra­sil é uma pi­ada – sem graça. Para co­me­çar, as en­ti­da­des que “re­pre­sen­tam” jor­na­lis­tas, pu­bli­ci­tá­rios, re­la­ções pú­bli­cas e de­sig­ners mos­tram pouco res­paldo e força junto ao go­verno, até para ques­tões es­sen­ci­ais como a re­gu­la­men­ta­ção des­sas pro­fis­sões. E esse é o ponto fun­da­men­tal para pre­ser­var e va­lo­ri­zar qual­quer pro­fis­são. Ao criar leis e nor­mas é pos­sí­vel evi­tar que pro­fis­si­o­nais pi­ca­re­tas sem co­nhe­ci­men­tos, sem for­ma­ção e qua­li­fi­ca­ção téc­nica ade­quada, sem ética, atuem de forma ir­res­pon­sá­vel, mas­sa­crando o mer­cado e ge­rando ró­tu­los ne­ga­ti­vos para to­dos os pro­fis­si­o­nais da área.

Por um lado, no caso es­pe­cí­fico dos jor­na­lis­tas, em que a pro­fis­são é re­gu­la­men­tada, o pro­blema é a longa dis­cus­são da lei que exige di­ploma de curso su­pe­rior de jor­na­lismo para a prá­tica da pro­fis­são. Mas, afi­nal, quem leva van­ta­gem em li­be­rar o exer­cí­cio da pro­fis­são para qual­quer ama­dor? Os veí­cu­los ten­den­ci­o­sos que de­fende gru­pos e pes­soas des­ca­ra­da­mente? Os veí­cu­los que omi­tem ou mas­ca­ram a ver­dade? Os “ja­ba­zei­ros”? Se a ca­te­go­ria ne­ces­sita de pro­fis­si­o­nais qua­li­fi­ca­dos para ter cre­di­bi­li­dade, nada mais óbvio do que exi­gir uma for­ma­ção edu­ca­ci­o­nal adequada.

Pa­ra­lelo a isso, um exem­plo in­te­res­sante é a vul­ga­ri­za­ção do termo mar­ke­ting. Foge um pouco do tema prin­ci­pal desse texto, mas como o mar­ke­ting está sem­pre re­la­ci­o­nado com a pro­pa­ganda, vale fa­zer essa ci­ta­ção. O uso da pa­la­vra mar­ke­ting tem sido tão mal em­pre­gado em vá­rios seg­men­tos que, nor­mal­mente, está sendo as­so­ci­ada a qual­quer tipo de ati­vi­dade. Hoje é co­mum ou­vir al­guém di­zer que está fa­zendo um “mar­ke­ting” da em­presa ao en­tre­gar pan­fle­tos nas ruas, ao fa­zer aque­las pro­mo­ções ba­ru­lhen­tas no ponto de venda, ao co­lo­car uma te­le­fo­nista chata, com voz ir­ri­tante, li­gando de forma ale­a­tó­ria para qual­quer um – prin­ci­pal­mente para aque­les que não são o público-​​alvo da em­presa – para ofe­re­cer pro­du­tos que não pre­ci­sam. E, o pior, é que já foi ins­ti­tuído até o cargo do pro­fis­si­o­nal que cuida disso. É ele, o marqueteiro.

Os RPs (re­la­ções pú­bli­cas) aca­bam so­frendo uma si­tu­a­ção pa­re­cida a re­tra­tada. Nessa área é co­mum que os pro­fis­si­o­nais se­jam ro­tu­la­dos como “aque­les que fa­zem as fes­ti­nhas” e gas­tam o di­nheiro das em­pre­sas. Um pro­blema sé­rio é que, em mui­tos ca­sos, o tra­ba­lho de re­la­ci­o­na­mento com cli­en­tes, for­ne­ce­do­res, fun­ci­o­ná­rios, so­ci­e­dade, veí­cu­los de co­mu­ni­ca­ção, acaba, ge­ral­mente, não sendo re­co­nhe­cido ou lem­brado. E isso acon­tece por­que boa parte dos ad­mi­nis­tra­do­res das em­pre­sas tem, ainda, uma vi­são nu­mé­rica e quan­ti­ta­tiva, sendo in­com­pe­ten­tes para con­se­guir ava­liar o tra­ba­lho pela qua­li­dade e seu re­sul­tado junto aos pú­bli­cos de interesse.

Já so­bre os pu­bli­ci­tá­rios e os de­sig­ners, a ques­tão é bem crí­tica. Não há uma re­gu­la­men­ta­ção sé­ria para es­sas pro­fis­sões. Hoje, qual­quer pes­soa que se auto-​​intitula pu­bli­ci­tá­rio ou de­sig­ner, in­de­pen­dente de ter ou não for­ma­ção edu­ca­ci­o­nal ou téc­nica, acaba con­quis­tando o re­co­nhe­ci­mento como tal, seja pelo mer­cado, tra­ba­lhando em em­pre­sas ou agên­cias, seja atra­vés de cli­en­tes que atende como pro­fis­si­o­nal li­be­ral. E ainda pior, as pró­prias “as­so­ci­a­ções dos pro­fis­si­o­nais”, em al­guns ca­sos, acei­tam a ins­cri­ção de pro­fis­si­o­nais pes­soas nes­sas con­di­ções, certificando-​​as com um tí­tulo ao qual po­dem ser in­com­pe­ten­tes para assumir.

As­sim, no mer­cado de pu­bli­ci­dade e de­sign, a qua­li­dade dos ser­vi­ços ofe­re­ci­dos pe­los pro­fis­si­o­nais os­cila muito. E para ates­tar essa afir­ma­ção basta ir à rua e olhar out­do­ors, pla­cas, fa­cha­das e ma­te­ri­ais pro­mo­ci­o­nais, ver anún­cios em jor­nais e re­vis­tas, e no­tar que são mui­tos os exem­plos de tra­ba­lhos de má qua­li­dade. Além disso, a ques­tão da guerra de pre­ços é ímpar. Mui­tas ve­zes torna-​​se ri­dí­culo dis­cu­tir va­lo­res com cli­en­tes que fa­zem co­ta­ções e op­tam pelo lei­lão re­verso para exe­cu­tar um tra­ba­lho. Os ser­vi­ços ofe­re­ci­dos por um pro­fis­si­o­nal de co­mu­ni­ca­ção, as­sim como os de um ad­vo­gado, um mé­dico ou um en­ge­nheiro, não tem sua qua­li­dade pa­dro­ni­zada. Por­tanto, o ho­no­rá­rio que ele es­ta­be­lece está re­la­ci­o­nado com seus co­nhe­ci­men­tos, suas com­pe­tên­cias e ex­pe­ri­ên­cias, e prin­ci­pal­mente, com sua cre­di­bi­li­dade junto aos clientes.

Para fi­na­li­zar, não po­de­mos afir­mar que es­sas ques­tões pro­ble­má­ti­cas se­riam re­sol­vi­das com a re­es­tru­tu­ra­ção ou for­ma­ção de con­se­lhos mais ri­go­ro­sos e sé­rios, to­mando como re­fe­rên­cia, por exem­plo, a força e cre­di­bi­li­dade da Or­dem dos Ad­vo­ga­dos do Bra­sil. Mas, cer­ta­mente, se­riam im­ple­men­ta­das me­lho­rias para a área, tanto para os pro­fis­si­o­nais que con­ta­riam com mais res­paldo junto à so­ci­e­dade e às em­pre­sas, como tam­bém para o mer­cado, que ga­nha­ria na qua­li­dade dos serviços.

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